Respondendo a Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo publicou em seu blog dois longos artigos nos dias 5 e 6 de agosto em que tece críticas a esta iniciativa. Devido à visibilidade do autor, responderemos  aos seus comentários aqui, em detalhe. Os textos originais vão reproduzidos abaixo em itálico, seguidos de nossas respostas

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QUEREM CASSAR E CAÇAR ESTE SÍMBOLO DAS REPARTIÇÕES. EM NOME DA TOLERÂNCIA!!!

Reinaldo Azevedo, 5 de agosto de 2009

 Vamos cuidar um pouco de outros assuntos, já que nem tudo no país, felizmente, se resume a José Sarney. O que não quer dizer que não possa haver manifestações piores. Começo com uma questão geral.Uma coisa é ser agnóstico; outra, distinta, é considerar mera estupidez o que não pode ser explicado pela razão; uma coisa é ser ateu; outra, distinta, é achar que os crentes merecem a fogueira — ainda que seja a da desmoralização.

Concordamos plenamente, e aproveitamos para reiterar o fato de que esta iniciativa não se baseia em “considerar mera estupidez o que não pode ser explicado pela razão” ou “achar que os crentes merecem a fogueira — ainda que seja a da desmoralização“. O que merece desmoralização são as violações patentes de nossa constituição não importando de onde venham. Prova disso é que esta iniciativa tem apoio de diversos religiosos e grupos religiosos.

 

Uma coisa é ser laico e advogar um estado idem; outra, diferente, é perseguir as religiões e os signos religiosos.

 Novamente concordamos, lembrando queque esta iniciativa não realiza e não aprova perseguição religiosa ou a símbolos religiosos. Defendemos enfaticamente a liberdade dos cidadãos e da sociedade civil em suas manifestações religiosas e uso dos símbolos religiosos. O que repudiamos é o rompimento do preceito constitucional da laicidade que se dá quando esses cidadãos tomam de assalto o Estado para seus fins particulares.

 

 Uma coisa é defender firmemente que a religião não degenere em fanatismo e sectarismo; outra, distinta, é perseguir fanática e sectariamente os que fazem questão de evidenciar a sua religião.

 Não cabe a esta iniciativa nem mesmo ao Estado traçar a linha entre religião e “fanatismo”. Aliás, sagrado é o direito do cidadão em manter suas convicções religiosas da maneira que bem entender, a despeito da opinião alheia. O Brasil para Todos não persegue ninguém, apenas o cumprimento da Constituição Federal. Mais uma vez: aqueles que quiserem “evidenciar” sua religião têm seus corpos, suas casas, suas instituições e até a via pública para fazê-lo livremente, nos termos da lei. Essa é uma liberdade que celebramos. O que repudiamos é o aparelhamento do Estado, que é de todos, para “evidenciar” sua religião, sempre em detrimento das demais, assim como da arreligiosidade.

 

Por que esse preâmbulo?


Certamente por julgar que todas as outras questões que dizem respeito aos “Direitos do Cidadão” já estão em seu devido Lugar, a Procuradoria Regional dessa área, em São Paulo, decidiu ajuizar uma ação civil pública pedindo à Justiça que obrigue a União a retirar símbolos religiosos, como crucifixo e bíblias, das áreas públicas dos órgãos federais. A argumentação: o Estado é laico.


Parece tudo tão óbvio, não? Parece tudo tão evidente: se é laico, sem símbolos religiosos. Pronto! Não! Pronto nada! De jeito nenhum! Houvesse a obrigatoriedade de se exibir o crucifixo nessas repartições, eu estaria entre aqueles a lutar pela mudança da lei. Mas não é assim.


Dada a forma como se ostentam esses símbolos nos órgãos públicos, estamos diante de uma óbvia e legítima expressão que é também da nossa cultura — não diz respeito apenas à nossa crença.

Sim, trata-se de uma óbvia expressão de nossa cultura. Mas isso não significa que ela seja legítima.  O racismo e a corrupção, por exemplo, também estão profundamente entranhados em nossa cultura, e isso não os faz legítimos. Comportamentos culturais nem sempre são bons, como o demonstra claramente os longos anos em que nossa sociedade alegremente apoiou a escravidão, por exemplo. A tradição brasileira sempre foi escravocrata e discriminadora, e no entanto conseguimos evoluir, trabalhando contra essa cultura. A se manter a hipótese oculta de Azevedo de que se é cultural, deve ser mantido, ainda teríamos escravos — mesmo depois da abolição.

Se um juiz ou promotor decidir pôr em sua sala um quadro com a imagem de uma figura do Candomblé, não ocorreria a ninguém lhe pedir que tirasse o objeto de lá.  

Azevedo precisaria ser onisciente para saber que “não ocorreria a ninguém” sua retirada. De fato, essa retirada ocorreria a todos os membros desta iniciativa. Caso Azevedo ou qualquer outro cidadão tenha conhecimento de alguma figura do candomblé ou de qualquer outro culto religioso em posição de destaque nas paredes de repartições públicas, teremos prazer de incluir sua foto em nosso site e lutar contra sua permanência com precisamente a mesma determinação com que fizemos com relação a todos os demais símbolos.

E ai daquele que o fizesse! Correria o risco de ser processado por racismo ou intolerância religiosa.

Esse é mais um laivo de onisciência de Azevedo. Caso isso venha a acontecer, esta iniciativa também lutará contra esse processo.

O mais surpreendente, e até engraçado, é que a ação da Procuradoria teve origem na representação de um tal grupo chamado Brasil para Todos. Para todos, como se nota, mas menos, então, para os cristãos, que formam, suponho, mais de 90% da população brasileira. Estamos diante da intolerância em nome da tolerância; 

Segundo a Wikipedia, “Intolerância é uma atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar diferenças em crenças e opiniões. Num sentido político e social, intolerância é a ausência de disposição para aceitar pessoas com pontos-de-vista diferentes.” Esta iniciativa saúda as diferenças de crenças e opiniões. Afirmamos com toda serenidade que a presença de símbolos religiosos em repartições públicas vem justamente dessa ausência de disposição de aceitar outras posições. Se a pluralidade fosse aceita, indivíduos como Azevedo não defenderiam que as repartições públicas continuassem saudando apenas e unicamente a sua própria crença.

do desprezo, então, à vontade da maioria em nome da minoria. Aí não é possível. Isso não é democracia, mas autoritarismo sectário.

Aqui reside um erro fundamental. A democracia não se baseia em  respeitar a vontade da maioria em tudo, pois a maioria pode ser racista, por exemplo. A vontade da maioria é o que justifica linchamentos. Por outro lado, uma vez escrita uma constituição democrática, as decisões baseadas em maioria jamais podem violar direios individuais, que são indisponíveis. E o que diz nossa Constituição é que o Estado é laico, o que implica paredes vazias de símbolos religiosos. Caso o colunista deseje alterar esse estado de coisas de maneira democrática, deve lutar pelo fim do art. 19 que estabelece a laicidade do Estado, obviamente que com todas as suas consequências, como a proibição ao divórcio (caso se estabeleça um Estado católico), ou a instituição de preceitos evangélicos assim que eles constituírem a maioria.

 Como já vimos aqui tantas vezes, a democracia não se esgota com a realização da vontade da maioria. Se os direitos e a voz das minorias não estiverem assegurados, não há regime democrático. A simples exposição de um crucifixo ofende a minoria não-cristã do Brasil? Aliás, dentro dessa minoria, quantos, de fato, estão se sentindo agredidos?

Não se trata aqui de haver ou não ofensa ou agressão. A violação à laicidade existe independentemente de alguém se sentir ofendido.

Não estamos diante de uma daquelas situações típicas em que não podendo o grupo minoritário impor a todos a sua vontade e as suas escolhas, contenta-se, então, em constranger a vontade majoritária?

Não. Repelimos veementemente essa insinuação e a imposição de qualquer posição religiosa pelo Estado, minoritária ou majoritária.

Caberá à juíza Maria Lúcia Lencastre, da 3ª Vara Federal, a decisão. O grande guia da meritíssima, a exemplo do que ocorre com todos os juízes, é a Constituição da República Federativa do Brasil, aquela que, como está explícito em seu preâmbulo, foi promulgada “sob a proteção de Deus”. Ou haverá nesta referência algo de profundamente ofensivo aos ateus e agnósticos? O tal grupo Brasil para Todos dará início a um movimento para tirar Deus da Constituição?

A questão do preâmbulo já foi tratada aqui. Esta iniciativa não dará início a qualquer outra atividade além da remoção de símbolos religiosos de repartições públicas.

Não seria o caso de consultar os brasileiros, então, já que a consulta feita — por meio da eleição dos constituintes — parece sem validade a essa gente?

Mais uma vez: o cumprimento da Constituição não está sujeito ao voto.

 Preconceito anticristão! Esse é o nome da iniciativa do grupo e, se quiserem saber, da ação da Procuradoria Regional. Aliás, seria mais específico: trata-se de preconceito anticatólico, porque é do catolicismo que deriva a, atenção!, “tradição cultural” de se ornarem repartições públicas com o símbolo maior do cristianismo.

Não há preconceito algum aqui. Esta iniciativa é contrária à existência de símbolos religiosos em repartições públicas, em cumprimento à constituição. Para caracterizar preconceito, deveríamos ao mínimo condenar o catolicismo e/ou os católicos, o que não fazemos. Condenamos apenas e tão-somente a atitude de alguns católicos em tomar o Estado brasileiro para si, o que é muito diferente.

Ora, que valores tão exóticos ele encerra? O da convivência entre as diferenças? O do amor ao próximo? O da solidariedade? O da caridade? O do perdão? O da fraternidade em Cristo? A quem isso tudo ofende? A quem isso tudo constrange? A quem isso tudo afronta? 

O articulista está criando uma cortina de fumaça para se desviar do assunto. Esses questionamentos são irrelevantes. Continuaremos a defender o cumprimento da laicidade Constitucional do Estado brasileiro quaisquer que sejam as respostas a essas perguntas.

 Fui ao site do grupo. Encontro lá os dirigentes. E algumas coisas começaram a ficar mais claras para mim:

- Iyalorisa Sandra M. Epega - Presidente da ONG Respeito Brasil Yorubá;

- Pai Celso de Oxaguián;

- Monja Coen Sensei - Missionária da tradição Soto Shu - Zen Budismo;

- Mahesvara Caitanya Das - sacerdote Vaishnava;

- Pr. Djalma Rosa Torres - Igreja Batista Nazareth;

- Rev. Cristiano Valério - Igreja da Com. Metropolitana de São Paulo;

- Ricardo Mário Gonçalves, PhD, monge budista;

- Monge Genshô, Diretor-Geral do Colegiado Budista Brasileiro;

- Jagannatha Dhama Dasa - sacerdote hinduísta Vaishnava;

- Milton R. Medran Moreira - Presidente da Conf. Espírita Pan-Americana.

Como fica evidente, trata-se da expressão de minorias religiosas. Que têm todo o direito de se manifestar. 

Não, trata-se também da expressão de minorias religiosas, entre muitos outros grupos e indivíduos. O colunista sabe disso, mas omite o fato propositadamente. Uma rápida passada d’olhos em nossa página principal mostra que não é esse o caso. É difícil enxergar qualquer honestidade na afirmação de Azevedo, especialmente porque ao longo do texto inteiro ele está negando a manifestação que ele diz legítima.

Aliás, é justamente o regime de tolerância propiciado, felizmente, pelo cristianismo que lhes garante lutar para que se apaguem da vida pública brasileira os sinais do… cristianismo. Essa gente seria realmente corajosa, valente, se decidisse, sei lá, pedir que o Irã eliminasse os sinais do islamismo da vida pública — imagem de Maomé, não, porque não pode…

Sim, senhores! O fato é que o cristianismo moderno tem sido a melhor garantia da tolerância entre as diferenças. A lei é sua forma civil. A tradição cristã é seu caldo cultural.

Azevedo vê a tolerância como resultado do cristianismo, outros indivíduos vêem o contrário, e isso está perfeitamente bem em uma democracia. O que não pode ocorrer é que o Estado force qualquer uma destas visões aos seus cidadãos de maneira subreptícia através da sua simbologia oficial.

A ONG também conta com “juristas”, como aparecem identificadass lá as seguintes pessoas:
- Roberto Arriada Lorea, MSc. - Juiz de direito;
- Daniel Sarmento - Procurador da República;
- José Henrique Torres - Juiz de direito;
- Iso Chaitz Scherkerkewitz - Procurador do Estado de SP;
- Aldir Soriano - Vice-presidente da Ass. Bras. de Liberdade Religiosa e Cidadania, membro da Comiss. de Dir. e Liberdade Religiosa da OAB-SP;
- Elza Galdino - Advogada

Que esses doutores reflitam se não estão tentando, a exemplo dos racialistas, trazer para o Brasil um conflito que não existe, importando tensões que não estão presentes entre nós ou que têm sido equacionadas no espaço da convivência democrática.O articulista sugere que o cumprimento da lei seja sacrificado em nome de uma suposta importação de conflitos, o que é (mais) um grave aviltamento da democracia. Ele parece parece deixar claro que gostaria mesmo que as minorias devam continuar se submetendo pacificamente ao abuso dos seus direitos, em nome da paz.

Rituais de natureza religiosa, segundo a tradição de cada país, estão presentes em quase todo o mundo.

Repetimos: não se trata de repelir rituais religiosos, apenas do uso do Estado para fins religiosos.

Em boa parte do planeta, a testemunha jura dizer a verdade com a mão sobre a Bíblia.

Tudo depende do que se chama de “boa parte”. Na verdade, para cada cristão no mundo existem dois indivíduos que não são cristãos. E dentro desse pequeno um terço de habitantes cristãos, grande parte dos países que os abrigam são plenamente laicos, de maneira que a vasta maioria na verdade não utiliza a bíblia. A “boa parte” é na verdade um grupo bastante reduzido — e minoritário, o que, segundo os preceitos do articulista, deve nos dizer que não precisa ser respeitado.

O cristianismo, felizmente, não se impõe mais a ninguém. No Brasil e no mundo.   

Na verdade, é exatamente isso que acontece quando os símbolos católicos são impostos a todos os cidadãos brasileiros.

 No que respeita à Igreja Católica, poucas religiões têm buscado, com tanta dedicação, a convivência com as diferenças — em alguns casos, a ponto de se descaracterizar. Querer cassar e caçar o crucifixo, impondo uma proibição, corresponde a violentar a história brasileira e a incentivar a intolerância.

PS - Por favor, tomem bastante cuidado ao comentar. Este é um texto contra a intolerância. E nós somos muito melhores do que os intolerantes, o que não quer dizer que não possamos ser firmes.

A proibição aos símbolos religiosos já existe como uma das muitas consequências da laicidade do Estado, vigente há mais de um século. Não está sendo implantada agora. Todas as constituições republicanas do país, sem exceção, abraçaram a laicidade exatamente para romper o passado de aberta intolerância dos tempos de colônia e império, quando todos os cultos que não o oficial eram reprimidos.

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A INTOLERÂNCIA DOS TOLERANTES! OU: DERRUBEM O CRISTO RENDENTOR E PONHAM DESCARTES NO LUGAR

Reinaldo Azevedo, 6 de agosto de 2009 

É… Começo com uma graça amistosa com os que querem banir o crucifixo das repartições públicas com base no fato de que o estado é laico: eu não sabia que havia tantos admiradores do Lênin no Brasil. E agora o que não é tão engraçado: é incrível como aqueles que se querem apegados apenas à racionalidade abrem veredas, sem perceber, para uma visão totalitária da história e do mundo. Por que Lênin?

Brasil para Todos é uma iniciativa apartidária e não esposa qualquer visão política em especial além da defesa intransigente da laicidade do Estado.

 Acho que já me referi aqui a um trecho da biografia de Trotsky escrita por Isaac Deutscher (a trilogia O Profeta Armado, O Profeta Desarmado e O Profeta Banido). No primeiro volume, acho (cito de memória), há a passagem em que o jovem Trotsky vai visitar Lênin no exílio, em Londres. Os dois saem para passear e falar sobre política. E o líder da revolução soviética vai mostrando ao jovem revolucionário: “Esta é a ponte deles, esta é a catedral deles, esta é a praça deles”. “Eles” , no caso, designava a burguesia. Todo o programa do homicida e liberticida estava contido naquelas pequenas observações. Porque a ponte, a catedral e a praça, evidentemente, não eram “deles”, mas da humanidade.

Não para um marxista chinfrim como Lênin, com a profundidade filosófica de um pires, para quem a história tinha um sentido evolutivo — e Marx o levou a pensar assim, claro. O socialismo seria uma etapa posterior da civilização, e haveria de ter, então, pontes socialistas substituindo as pontes do capitalismo; catedrais do socialismo (não dedicadas a Deus, é óbvio) substituindo aquelas da civilização primitiva. O socialismo, como uma das manifestações mais extremas da Razão — ué, por que não? — deu no que deu. Aliás, a Razão já tinha dado no que tinha dado durante o Terror, na Revolução Francesa, não é? Calma lá! Não me confundam: sou amigo da Razão. Não sou é amigo da mistificação.

O estado laico não mata a história que veio antes dele. Não é preciso esmagar uma catedral com outra, uma ponte com outra. A palavra “cultura”, na origem, remete a “cultivo”. Podemos cultivar a nossa história. Já volto a este ponto. Antes, algumas outras considerações.

Concordamos plenamente com o fato de que “O estado laico não mata a história que veio antes dele“. A história pertence aos livros. No entanto, a proposta do Estado laico rompe com as tradições autoritárias da imposição religiosa que sempre foi a norma no Brasil e em todo o mundo, o que é extremamente positivo.

 Os que não suportam manifestação de religiosidade em espaços públicos e coletivos podem suportar a estátua do Cristo Redentor? Ou haveremos de substituí-la por, sei lá, uma outra de Descartes? 

Como este site deixa bastante claro, nossa luta é pela remoção de símbolos religiosos de repartições públicas. Também deixamos claro que a laicidade implica em ausência de compromisso filosófico do Estado para além dos valores da democracia e dos direitos humanos. Insistir em qualquer outra proposta é mera tergiversação, infundada e alarmista.

 Não me venham dizer que, em matéria de Razão, Cristo era páreo para Descartes, não é mesmo? E se uma era tem de esmagar a outra, como queria o nobre companheiro Lênin, acho que é preciso implodir aquele troço que está lá e consagrar — no bom sentido, claro, o não-religioso… — o símbolo do racionalismo. Confesso que seria ao menos engraçado ver os desdentados substituindo o “Pai Nosso” pelo “Cogito ergo sum”. Afinal, vocês sabem, sem uma religião cristã para atrapalhar, os povos costumam ser bem mais livres, como provam aqueles paraísos da Africa subsaariana. Na “suprasaariana”, aí já há o paraíso de Alá… É outro!

 Eu não gosto de idéias pela metade. Se é para abolir, POR FORÇA DE LEI, o crucifixo das repartições públicas — fico cá imaginando um barnabé caçador de crucifixos… —, então será preciso abolir também o Natal, a Sexta-Feira Santa etc. Que ONG se atreve a entrar com este pleito e que juiz aceita dar a sentença? “É, com efeito, são feriados religiosos, e o estado brasileiro é laico. Não tem feriado coisa nenhuma!”  

Azevedo novamente insiste em associar a proposta atual a outras. A apreciação do mérito de cada uma delas deve ser feita em separado, com uma análise cuidadosa e detalhada caso a caso, e não no atacado, como quer o articulista. Tanto a peça do MPF-SP como o Brasil para Todos se ocupam e se ocuparam apenas dos símbolos religiosos em repartições públicas.

Incrível, reitero, como se pode, em nome da razão, abrir as brechas para o pensamento totalitário. Notem bem: o estado brasileiro não é ateu. Não é um estado que, como o chinês e o cubano — dois paraísos para quem fica nervoso quando vê um crucifixo em órgão público — se declare ateu. Ele é laico! Isso quer apenas dizer que não se orienta segundo a lógica, as necessidades e a mística de uma religião. Mas a Constituição brasileira PROTEGE as religiões e o culto religioso. NÃO HÁ UMA LEI IMPONDO CRUCIFIXO NAS REPARTIÇÕES. Aliás, nas que tenho visitado, são cada vez menos freqüentes. QUANDO HÁ LÁ UM CRUCIFIXO E UMA BÍBLIA, NO MAIS DAS VEZES, OS OBJETOS SÃO ECOS DE UM TEMPO EM QUE ESSAS ESFERAS NÃO ERAM TÃO SEPARADAS. Mas é só memória. É só história! 

Concordamos plenamente com as afirmações acima,com exceção das duas últimas: não é só memória, não é só história. Os símbolos religiosos em repartições públicas brasileiras continuam reais e contemporâneos. No papel, o Estado brasileiro mudou de confessional para laico no século dezenove, mas algumas práticas antigas permaneceram, ao arrepio de todas as constituições republicanas.

Não havendo a lei que imponha e não tendo aquele crucifixo ou aquela Bíblia qualquer influência nas decisões do funcionário público, obrigar a sua retirada por força de uma determinação legal caracteriza uma óbvia perseguição a símbolo religioso, em desacordo com a Constituição.  

Nada há de óbvio aí. Não há qualquer fundamento para essa afirmação. A lei já estabelece que os símbolos não deveriam estar lá: a ação do MPF apenas procura adequar a realidade atual àdeterminação constitucional que ainda não foi obedecida, depois de quase 120 anos. Seguir a lei não é perseguição a ninguém, é respeito à democracia.

Mais: ainda de acordo com teses que me parecem obviamente autoritárias, hipertrofia-se o conceito de ESTADO e se esquece o conceito de NAÇÃO. O Estado brasileiro, com efeito, é laico. Mas a nação brasileira é esmagadoramente religiosa. 

A nação brasileira também é em grande parte corrupta, clientelista, racista. Daí não implica que a lei ou o Estado devam se resignar a aceitar tais práticas.

E o país tem sabido conviver com as diferenças.

É o direito à opinião do articulista. Muitos membros de minorias religiosas têm visão diametralmente oposta. Mas nossa lei maior deve ser cumprida tanto de um jeito como de outro.

Há terreiros de umbanda e candomblé no Brasil que são tombados e, pois, mantidos e protegidos com dinheiro público. Uma reivindicação dos progressistas em nome da diversidade cultural!

Desse fato não se segue que haja bom convívio com as diferenças, e os símbolos religiosos em nossas repartições públicas, absolutamente uniformes em sua ausência de diferença, deixam isso bem claro.

Olhem: as pessoas que compõem a tal ONG que resolveu enroscar com o crucifixo pertencem, na sua maioria, a religiões minoritárias no Brasil. 

Além de falso, isso é irrelevante. O mérito da causa não depende de quem a propõe.

Estão protegidas pelo texto constitucional e, tenho certeza, não enfrentam qualquer animosidade da maioria católica brasileira. Zero!

Novamente, uma opinião da qual discordam veementemente muitos membros de minorias religiosas. As comunidades de terreiro, por exemplo, são reiteradamente impedidas de exercer seus direitos constitucionai de assistência religiosa nas forças armadas (não existem capelanias de candomblé ou umbanda) e até mesmo em hospitais, onde os sacerdotes são barrados já na porta de entrada. Segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo, os ateus, por sua vez, merecem repulsa ou ódio de 17% da população brasileira, e recebem antipatia de outros 25%, totalizando 42% de reação negativa. E isso são apenas dois exemplos. Azevedo, mais uma vez, distorce a realidade para adequá-la a sua tese.

 Mas parece que isso não basta. É preciso não inverter a relação de causa e efeito: a maioria do povo não é composta de católicos porque há crucifixos nas paredes das repartições; há crucifixos nas paredes das repartições porque a maioria é católica.

Na verdade, tudo indica que a simbologia dominante tem algum papel na manutenção do status quo. Mas isso é irrelevante. Os símbolos religiosos são inconstitucionais de uma maneira ou de outra.

Não se trata daquela bobagem de que maioria tem sempre razão. Isso é tolice.

Mais do que uma tolice, é uma proposta discriminadora e autoritária que Azevedo esposa quando sugere que o assunto deveria ser resolvido por votação popular.

Estou evidenciando que há um esforço para apagar um costume, uma tradição, uma manifestação cultural, com a força coercitiva do Estado.

Mais uma vez concordamos. O Estado deve agir para apagar qualquer  tipo de costume ou tradição que viole os direitos individuais e as bases da democracia, como a corrupção e os atentados contra a laicidade. Caso clássico se deu quando, em 1997, o STF determinou a ilegalidade da farra do boi, costume secular brasileiro.

Nós lutamos para que os terreiros de candomblé deixassem de ser perseguidos, não para que passássemos a perseguir crucifixos.

Repetindo: não estamos “perseguindo crucifixos”, mas o mau uso que se faz das repartições públicas.

Muitos expressam, sei lá, um quase ódio à Igreja Católica por causa de seu passado etc e tal. Não vou entrar nesse mérito agora. Já andei escrevendo sobre isso. O fato é que, hoje em dia, e já há muito tempo, a Igreja tem sido exemplo de convivência com a diferença. Digam-me um só lugar em que cristãos perseguem não-cristãos. Mas eu posso enumerar vários, muitos mesmos, em que os cristãos são terrivelmente perseguidos e, às vezes, esmagados. 

Mais uma vez, isso é irrelevante. Nem nós nem o MPF está “perseguindo cristãos”. Estamos perseguindo a plenitude democrática e o cumprimento da lei. Os cristãos continuam com suas práticas intactas em seus locais de culto, que não incluem as repartições públicas.

Outra coisa: sugiro um pouco de cuidado e pesquisa antes de negar o vínculo estreito entre cristianismo e democracia ocidental.

Algumas pessoas vêem esse vínculo, outras vêem o oposto dele. Mas não cabe ao Estado tomar partidos nesse embate postando o símbolo de um dos lados em suas paredes.

Finalmente, respondo a uma questão que andou aparecendo aqui e ali. Entrando em confronto, inclusive, com alguns amigos conservadores, critiquei a chamada Lei do Véu na França. Acho um absurdo que se proíba o uso do véu numa escola porque é “é um espaço laico, e aqui somos todos republicanos”. Ora… Se é para conter o Islã, em vez de conter, atiça. Mais: deu-se asa uma tolice e a uma inverdade. Proibiram-se tanto o véu islâmico como o crucifixo, o que significa que, para a República francesa, véu e crucifixo tiveram, na formação daquele povo, a mesma importância — ou a mesma desimportância. É uma asnice. Mas compreendo. Nas escolas francesas, um sanguinário tarado como Robespierre ainda é tratado como herói. Em nome da Razão! Pensando bem, vamos derrubar o Cristo e meter Robespierre lá.

As pontes são nossas!

As catedrais são nossas!

As praças são nossas!

Os crucifixos são nossos!

“Nossos?” Da civilização!